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A extinção dos comentadores profissionais

O comentador encartado está a perder espaço.
Pessoas presumivelmente cultas, versadas em agricultura, resíduos nucleares, política laociana e culinária estão a perder audiência para um novo género emergente de comentador: o político em pousio.
Está nova espécie – basicamente ignorante de todas as matérias - tem, no entanto, um profundo e aturado conhecimento de uma coisa: a sua pessoa. É com base nos seus EGOS que são capazes de explicar o funcionamento do bosão de Higgins, os efeitos climatéricos da extinção da acácia rosa ou a razão da perfeição ergonómica da passada de H.Bolt.

E isto só é possível por dois fenómenos: o batismo redentor e o fanatismo popular pelo imediato.

O primeiro, dita a ressurreição, ou melhor, o renascimento do Homem. Livre dos pecados anteriores pela aceitação de uma nova fé, regressa revigorado e perdoado. Tal como um carro usado recauchutado pelas oficinas da marca, parece que nunca conheceu estrada. O seu hímen político parece intacto e impoluto, virginal e inóspito como as partes de qualquer santa (presumindo que as santas tem partes!).
O mergulho nas águas beatas lavou todo o passado. Está pronto para retomar a palavra e combater o vil demónio que nos faz sofrer, iludindo a sua responsabilidade na construção do Inferno.
O que pode um comentador versado e multidisciplinar perante o ente miraculado que se ergue sobre as ondas altaneiro e divino e sem recurso a prancha surfista?

Depois, o fanatismo pelo imediato é uma espécie de cegueira mítica que nos persegue a vida toda e nos leva a reagir como arautos da sarça-ardente. Perseguimos bruxas, gambuzinos, Frankenstein (nome judeu?). Queremos justiçar imediatamente o cruel, o profano, o diferente. Somos uma massa estúpida que se alia gregariamente a mais estúpidos, transformando a estupidez em verdade e dando argumentos a apostasia da justiça e do bom senso. Só assim se explica porque abaixo assinamos um pedido a AR para uma coisa que não lhe cabe decidir; só assim se explica esse sufoco contra a Besta que regressa e a tolerância aos outros beatos que vagueiam pelo audiovisual, comentando tudo com a sapiência dos deuses que jejuaram 30 dias na montanha.
Senão vejamos: Temos um ex- Primeiro – Ministro versão Smart que não sei se já teve tempo de se inscrever na Ordem dos Advogados que nunca foi capaz de controlar o boca de lixo da Madeira e que é tão defensor da verdade e da justiça e nunca mexeu uma palha para por na ordem os seus correligionários que se besuntaram na CGD, nos contratos amicais de privados com o Estado e em algumas PPP’s. Não vi nenhum processo de intenções de corrigir nada quando havia tempo e poder para o fazer.
Agora é só retórica de telemóvel e de informações secretas (que acredito serem transmitidas por um funcionário do Relvas, só para diversão pessoal de ver aquela mínima pessoa erguer-se nos tacões da espionagem intrapartidária!).

Temos também a mãe de todos os comentadores, o “Professor”. Nem vou perder tempo com este candidato eterno à Presidência da República e que, depois do batismo redentor (esse sim, materialmente realizado nas águas do Tejo) nunca mais se meteu noutra e limita-se a falar interminavelmente num telejornal qualquer, acho que ao Domingo.

Outro candidato à Presidência mas esse mais na área clubística também diz umas coisas como já viver com menos recursos desde 2008. Talvez por isso esteja agora a juntar uns trocos nesta atividade egótica e com o seu ar gentilíssimo explica os males de todos e a incapacidade de tantos, esquecendo o seu papel no passado de cigarra que não previu a invernia. Tudo isso sem mea culpa, sem assunção do pecado, sem expiação.

A turba ansiosa por populismos redentores passa o tempo a vê-los e disponíveis para fazer fogueiras para queimar o “monstro”. Com as alfaias do desemprego na mão e a certeza de que, se queimarmos as bruxas, o pesadelo desaparecerá.
O problema é que não desaparece nem que queimássemos todos.
Não há catarse que nos devolva o país. Nem cadáveres. Nem o luso delírio messiânico.

O que nos falta é a decência de sermos responsáveis.

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