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A NATO e a idade da reforma


Se vivêssemos num mundo decente em que o Estado Social conseguisse garantir a qualidade de vida dos cidadãos, a NATO teria chegado à idade da reforma.

Dada a sua natureza belicista e fruto das inúmeras jantaradas que proporcionou a si própria (este é o ano do bacalhau!) tem maus fígados, tensão arterial elevada e uma série de outras mazelas que em condições naturais já a teria levado a morte.
Mas essa nossa obsessão de prolongar a vida dos doentes para além do razoável faz com que existam estas carcaças no mundo, agonizantes e torturadoras de quem a elas está submetido.

Digo-vos, em segredo, que há uma razão para os que constituem a sua família manterem vivo este velho quezilento, surdo e cheio de fel: a herança.
A apetitosa distribuição do poder faz com que todos se sentem à mesa no Natal, Páscoa e outras efemérides, trocando falsos sorrisos e atirando fanfarronices de vida, fotografias de férias e notas dos filhos. No fundo todos se odeiam e sabem que separados terão de lidar com litígios longos e delicados que consumirão recursos, tempo e vidas alheias (isso sempre e indiscutivelmente!).
Os parentes mais “de esquerda” vão defender o fim do nuclear, os mais conservadores a sua manutenção, outros vão apelar que aquele filho ilegítimo possa enfim tornar ao seio da família, outros olharão com desconfiança aquele tio maluco que tem outra religião.

O fim de um patrono causa essa mossa nas famílias, é verdade.

Enquanto existiram blocos militares e um mundo dividido em a NATO e o PACTO, instrumentos de dominação e terror na defesa de interesses muito particulares, algumas pessoas ainda acreditariam na sua utilidade. Com a globalização do capitalismo, não podemos andar para ai em guerras a dar cabo de mão-de-obra barata e a paralisar a exploração de indígenas por questões menores.
Há que existir sensatez.

Desde 2000 que a velha NATO não dá uma para a caixa. De eixo fundamental das “democracias ocidentais”, uma das mais queridas do Chefe, passou para um trabalhador quezilento, dispendioso e improdutivo. Não fez nada para evitar os desmandos dos novos tempos, não se adaptou as mudanças do serviço (guerra tecnológica, ciber crime, terrorismo) tentando fazer as coisas como sempre fez: à mão (leia-se intervenção militar pura e dura). Fartou-se de levar banhada em conflitos regionais nos 4 cantos do mundo porque não o quis perceber e continuar a agir como sempre: carimbo e papel.
E depois queria aquelas mordomias que o patrão foi cortando na afamada “contenção de custos” que significa manter o nível de quem tem muito à custa de quem pouco recebe.
Enfim, não se está adaptando (como gosto dos gerúndios!).

Uma organização militar não sabe combater o terrorismo. É como pedir ao Chuck Norris para representar Hamlet!
Além disso, está por provar se o próprio conceito de terrorismo corresponde exactamente aquilo a que se aplica e se este mesmo conceito não será uma produção ocidental para manter um mercado (armamento) que tem menos margem comercial agora do que no período dos dois blocos.
Não se contribui para a paz e estabilidade mundial com uma organização que, no mínimo deveria estar subordinada à ONU (também a precisar de reforma mas por invalidez!) e não aos desvarios dos presidentes americanos que nos saem na rifa e que podem ser actores, alcoólicos ou gente perturbada a vários níveis.
A simples mudança táctica de organização defensiva para exército mundial com intervenção em outros cenários seria suficiente, à luz do Direito Internacional para coloca-la no mesmo patamar da Al-Qaeda ou dos narcotraficantes!

Necessário seria a implementação de uma força de intervenção musculada no âmbito da ONU e dependente de um mandato claro desta para intervir em qualquer parte do globo, partindo da mudança do conceito de não ingerência na política dos Estados quando estes são executantes de genocídios contra o seus próprios povos, quando a instabilidade possa provocar ondas de refugiados que afluem as fronteiras de outros estados soberanos, quando os Direitos Humanos fundamentais são clara, repetida e reiteradamente desrespeitados e uma série de outras situações que poderemos enumerar do ponto de vista prático.
Claro que me dirão que com esta modificação, esta força equivaleria a duas NATO e a quantidade de intervenções seria de tal ordem que se tornaria onerosa. E manter exércitos nacionais? Sai por acaso barato? Cada país ter uma politica nuclear própria, por acaso é de borla?
Convenhamos…

O mercado tecnológico do armamento está em mudança.
Agora os nichos de exploração são as armas de combate urbano (armas ligeiras e eficazes a curta e média distância, com acessórios de mira e visão sofisticados, carros de combate urbanos, sistemas de dissuasão e dispersão com efeitos físicos e psicológicos cujo dano provocado está por apurar) e com a neutralização do armamento inimigo e o armamento táctico autónomo e inteligente (o que permite a guerra socialmente “limpa” e segura porque transforma o acto de matar num jogo de consola, ao nível de qualquer adolescente médio).
O mercado sabe que as próximas guerras serão nas ruas e não grandes batalhas entre estados e fronteiras.

Será impossível convencer os Estados Unidos, Rússia e China (e a França que tem as suas manias!) a reduzir a relevância das suas forças armadas. Não por desconfiança mútua mas por uma questão de estratégia de pressão. Nenhum deles entrará em conflito directo porque o que importa aqui é vender armamento e promover a beligerância regional para manter as suas indústrias.
A pobreza de África é a riqueza dos senhores da guerra.

À NATO restam pois duas saídas: colocar-se ao serviço da ONU e ter uma dimensão mundial ou assumir – preto no branco – a sua real função de exército do G7.

Cá por mim, deixava o velho morrer.






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