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A iguana já jantou?

Da busca interminável de algum bem-estar que acaba por ser a nossa existência, e não havendo livros de instruções - apenas muitos e muitos ensaios com tentativas de racionalização (desde o mito, passando pela religião até à filosofia), várias são as tentativas de explicar e criar alguma ordem na caótica sucessão de eventos que é uma vida. A mentalidade dominante foca a coisa, do meu ponto de vista, demasiado no verbo ter, tem-se coisas, pessoas, status... Enfim, se não tem dinheiro para ter, peça emprestado e vai pagando. Na realidade, nos dias que correm, passa-se a ideia que nada é impossível, haja como pagar a prestação. Isto aplica-se ao veículo utilitário, ao topo de gama, aos seios ou nariz. E assim se passa uma ideia de felicidade ligada ao ter, sente-se infeliz com um pequeno Fiat? vai ver que quando for visitar os pais com um Jeep catita se vai sentir muito melhor. Acha que lhe ficaria muito melhor um nariz de Angelina Jolie? Ou porventura, acha a sua estatura insuficiente? Pois, porque não? É só passar no banco e seguir para a Clínica. É só ter dinheiro, ou capacidade de endividamento. Ter. Têm-se coisas e mais coisas. Mas o problema de ter coisas é que a satisfação se esgota rapidamente, é uma espécie de bem-estar transitório, não sustentável, é como as drogas, pede mais e mais. Mesmo o nariz ou a estatura depois de conseguidos, deixam de ser importantes para se notar que outra parte do corpo também pode ser melhorada. Tudo é possível. Será? E temos realmente algo ou alguém? Eu diria que, com sorte, realizamos algo, estabelecemos relações mais ou menos satisfatórias e disso tiramos um balanço positivo a que se pode chamar felicidade. E não passa pela propriedade - juridicamente definida como o direito de usar, fruir e alienar (era abusar em vez de alienar, mas já houve necessidade de mitigar o conceito, pelo menos na teoria).
Na vertigem de ter, não se incluem apenas coisas, os seres vivos também são abrangidos, coisificados.
E não vou opinar sobre as relações 'de verbo ter' com outros humanos, vou focar apenas e por ora, os animais ditos de companhia, aqueles cuja utilidade económica não é o móbil que leva as pessoas a adopta-los. A variedade é imensa, desde o escaravelho dos japoneses, passando por cães, gatos, canários, peixes, enfim. Aparentemente, pouco importa se são vivos. Funcionam, às vezes mal, ou seja seguindo a sua natureza provocam transtornos e toca a devolve-los ou, mesmo despacha-los para o meio da rua. Vamos lá ver, o bicho para funcionar bem, não deve provocar demasiada perturbação, e claro que qualquer pessoa pode perfeitamente ter um animal, e que importa que nada conheça acerca da espécie e dos seus padrões de comportamento. E assim se vê a feliz proprietária de um pobre Beagle em absoluto stress por cruzar-se com outro cão: "e agora, o que acontece, o que se faz?", bom, do mal o menos, se o Beagle não desenvolver problemas de comportamento que, até seriam naturais dada a incapacidade da amiga humana de compreender minimamente os padrões normais de comportamento de um cão, acabará por ensinar à senhora o que significa um cão.
Mas, lá está, não chega um comum animal doméstico, é preciso ir buscar animais mais vistosos e exóticos. E lá vêm as pobres araras que estavam tão bem na selva, e mais uma série de outras espécies oriundas dos mais diversos ecossistemas. Como as iguanas. Em relação a um elemento desta espécie (alegadamente) ouvi, um destes dias, uma notícia curiosa, então, ao que parece, um casal estando em Espanha, decidiu comprar uma iguana. Pacífico. O problema é que na realidade trouxeram um crocodilo. A partir daqui a coisa é, linda.
Estou a imaginar a constatação curiosa de que quando a iguana foi à água "aquelas coisinhas por cima da coluna saíram, engraçado, parecem mesmo umas pestanas postiças, será melhor ligar para a loja?". Se calhar não vale a pena, devem crescer outra vez, diz que os répteis são assim, perdem coisas que voltam a crescer, ou mesmo, "Onde está o Bobby? Oh não, não me digas que te esqueceste de dar o jantar à iguana!!!".

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