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Xenofobia pós-pós moderna

No plano mental/individual podemos posicionar-nos secretamente desde o mais reles racismo até uma atitude de falso igualitarismo. Digo falsa porque existe sempre um radical livre de incomodidade perante o diferente, que me perdoem os que se acham imunes. Se perguntar a qualquer pessoa que já foi vítima de discriminação ela dirá que mesmo os seus mais acérrimos defensores denotam, por vezes, uma atitude diferenciadora.
É impossível fugir-lhe porque não somos isentos, não conseguimos deitar fora o peso de uma cultura, de uma formação e das nossas vivências. Não é caso para ficarmos com problemas de consciência. Basta constatarmos e tentar ultrapassar as nossas próprias dificuldades.
A transposição para o social do que pensamos esbarra no natural “polimento para a aceitação geral”. Seremos mais ou menos francos consoante grupos, ambientes ou fins da nossa comunicação. Para os que incontrolavelmente acham que o estrangeiro e o diferente são o problema, melhor será reflectirem e verificarem que o mundo mudou.
Quantos destes rapazes que põem ovelhitas negras a ser chutadas para fora do rectângulo mágico não ficam de lágrima ao canto do olho ao ouvir o hino e o tremular da bandeira a cada medalha de Obikwelu, Nélson Évora ou Naide Gomes? (Ou só aplaudem a Vanessa?).
E quem não trocaria a classe politica portuguesa na sua quase totalidade por um homem da estatura de Nelson Mandela?
Os ciganos não se integram porque nós não deixamos ou eles não querem integrar-se? Eles não procuram trabalho ou nós não lhes damos emprego? Eles dedicam-se a actividades comerciais ilícitas ou, caso tenham uma loja num shopping, as pessoas irão lá comprar?
O facto de se juntarem é uma estratégia gregária das minorias, porque mantém a sua cultura, à falta de argumentos para se deixarem aculturar: não é de ser cigano. Mas eles nem precisam de se juntar porque as pessoas os temem. Lá no fundo da nossa educação alguém nos disse para não nos aproximarmos, para os evitarmos.
Haverá ciganos que desejam a integração e iguais oportunidades de trabalho; haverá outros que não. De facto são como alguns de “nós”, trabalhadores ou ociosos.
Tem bons carros sem ter dinheiro? Quantos de nós temos luxos para os quais não temos dinheiro ou que foram conseguidos à custa de uma facadazinha na Lei, nas Finanças ou num expediente manhoso? Mas eles vendem droga! Melhor será até perguntar quem lhes arranja produto para a venda...
A chatice é que eles são portugueses! Sim, por mais mobilidade que tenham, tem uma nacionalidade, como os nossos avós que foram para França e Suíça ou como os nossos filhos que agora partem para Inglaterra, Luxemburgo e Holanda.
E os brasileiros cujo único defeito é não falarem português! E, como sabemos, as mulheres são todas prostitutas...
Não falarei dos benefícios no futebol, nem na TAP, nem na publicidade nem na importância estratégica para Portugal da sua visceral associação ao Brasil.
A integração cultural hoje dita as regras. Não a cor, o feitio ou a voz. A segunda geração dos emigrantes é portuguesa, mesmo que professem religiões distintas, comam diferente ou prefiram outros desportos. A diversidade é um alento contra o obscurantismo e reifica o sentido de humanidade. Os mecanismos de pertença e a integração afectiva fazem com que um brasileiro por vezes defenda mais Portugal do que os próprios nativos ou um ucraniano zele pelo bem-estar da sua comunidade de uma forma mais activa do que os seus vizinhos.
É com a realidade e os nossos medos que temos de lidar.
Para além disso tudo, é aceitável que a direita “saia do armário”, como na Áustria… não é por isso que os cidadãos os excluirão. Direi mesmo que a esquerda sairá à rua na defesa dos seus direitos de orientação sexual.
Como vêem, esta tudo cada vez mais opaco!

De qualquer maneira, não resisto a deixar esta notícia já antiga que vos convido a ler.
http://www.sfgate.com/cgi-bin/article.cgi?f=/g/a/2001/08/07/eguillermo.DTL

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