Pular para o conteúdo principal

Os 98 Mandamentos – 5º Episódio

Já não há borlas?
Podia escrever um post muito sério sobre isso.
Ou podia alinhar na palhaçada e tecer críticas a este pobre desvario liberal. Mas não.
O 25 de Abril trouxe consigo um sonho de igualdade, do qual o SNS é o ícone mais significativo. Em 10 anos Portugal passou dos índices de maior atraso na saúde para um primeiro plano cuja cereja foi a diminuição drástica da mortalidade infantil, a erradicação de doenças endémicas como a cólera e um acompanhamento mais justo e equilibrado para todos.
Representou um tempo em que a medicina não era um negócio na sua essência e do seu carácter universalista transparecia a dimensão da Democracia. A sua construção foi uma das maiores tarefas do regime democrático.
Teve imperfeições, não soube adaptar-se à forma e conteúdo dos tempos mas a sua essência é inequivocamente justa e necessária.
Nunca concordei que fosse gratuito para todos. Há sempre um pequeno contributo a dar, uma vez que um serviço dessa dimensão obrigue a um exercício de gestão gigantesco que um OE por si só pode não abarcar. O que não impede a validade da seu funcionamento.
A estrutura da social portuguesa mudou muito em 30 anos. A população idosa cresceu, zonas do país desertificaram-se e a mobilidade aumentou.
Do ponto de vista constitucional o tendencialmente gratuito, não sendo correcto, era sensato.
O modelo que agora se propõe que "em caso algum" o acesso pode ser recusado "por insuficiência de meios económicos" sugere desde logo que a saúde será privatizada e protocolada com empresas privadas que assumirão a gestão dos espaços públicos e dos orçamentos. Sabemos o resultado: todos os serviços que o Estado contratualizou com privados para o substituir resultaram numa assombrosa despesa com valores 30 a 40% mais caros do que se fosse prestado pelo próprio Estado. Isto aconteceu na Saúde e em outros serviços cujos orçamentos foram “tratados” antes de serem entregues ao crivo do TC.
PS e PSD têm perseguido esta política, seja com Misericórdias, seja com seguradoras e as ilações são as mesmas: instalações requintadas e consultas de duração máxima de 8 minutos. O doente deixa de ser pessoa e passa a sintoma, testa-se com os exames necessários ou desnecessários, avia-se a medicação e já está.

O fim do SNS será o fim da crença numa sociedade mais justa.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Alguém nos explica isto?

Os registos de voo obtidos por Ana Gomes em 2006 revelam que, entre 2002-2006, em pelo menos 94 ocasiões, aviões cruzaram o espaço aéreo português a caminho de ou provenientes da Baía Guantanamo . Em pelo menos 6 ocasiões aviões voaram directamente das Lajes nos Açores para Guantanamo. Ver o relatório da ONG britânica. Não creio que isto nos deixe mais seguros e tenho a certeza de que me deixa a consciência pesada, foi o estado em que me integro que permitiu isto. PS (por sugestão do Vinhas). As notícias sobre um dos aviões que transportaram presos para Guantánamo e que agora se despenhou no México carregado de cocaína podem ser vistas aqui e aqui ou ainda aqui.

Porque não te calas?!

Com esta frase inaugura-se mais um capítulo das relações entre a Europa e América Latina. A Democracia, este capricho ocidental que, qual religião a expandir-se para além das terras dos Mouros, revela-se na sua melhor versão. Cinco séculos de colonização cruel, imposição religiosa, imperialismo grotesco e “relações de amizade entre os povos” criaram um tiranete de bolso como um produto que, pelos vistos, ninguém quer aturar! “Porque não te calas” (bem podia ser o nome de um bolero) é, no fim de contas, tudo o que representa o diálogo Norte-Sul. É o sentimento do sul-americano pobre que olha para a Europa e América como uma imensa despensa guardada por muros e arame farpado. O esforço de Zapatero (o único a ficar bem na fotografia) em responder a Hugo Chavez numa correcta polidez e consciência de onde estava, ficará na história como um testemunho a paciência. Quanto aos outros dois passaram a imagem tonta do que representam: um, o representante simbólico de uma forma secular de poder qu...