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O equívoco liberal

O lugar-comum provocado pela confusão entre Liberalismo e Capitalismo por vezes se torna aborrecido.

Por vezes qualifica-se o absurdo da exploração humana  como uma atitude “liberal”, como se este fosse uma expressão “extremista” da atitude capitalista. Por outro lado, os próprios setores capitalistas investem na confusão, protagonizando o “liberal” como uma figura de visão e pensamento desassombrado, alinhando sibilinamente com o estrelato burgues cosmopolita e modernizador.
Resumindo, todos ajudam a esta visão caótica e anárquica.

O bom e velho Locke (ao que sei o primeiro a usar a expressão) procurava apenas criar uma linha de pensamento com vista a proteger o cidadão do Estado, criando a noção de que a lei deve proteger não apenas o burgues mas o pobre. Porque a lei deve ser neutral e conferir garantias iguais a todos.
Este critério liberal sofreu diferenciações ao longo do tempo, sendo uma prática mesmo dissemelhante entre nações europeias e foi nas fileiras divergentes do pensamento liberal que o socialismo se formatou (liberalismo igualitário). A cisão destas diferentes correntes ocorre com a Revolução Francesa, onde, marcadamente, surge um pensamento liberal conservador e individualista e outro libertário, coletivista e democrático (divergindo do liberalismo de origem pela componente socializadora, que abdica de liberdades individuais para o progresso coletivo).

A corrente cai em desgraça no Séc. XIX com o progresso do capitalismo selvagem e da reação comunista, sendo maltratado por ambas as partes. Do ponto de vista do Capital, a Lei igual para todos é um disparate, sendo apenas necessário acautelar a diferenciação de classes, a religião e a pátria.
Herbert Spencer culpa os pobres e os outros que se “recusam a trabalhar ou se fazem despedir dos empregos”; são mandriões e nunca serão capazes de se “erguer” (estão a apanhar o tom atual que deu ontem no telejornal?!).
Partindo da idiotia capitalista, surge a “outra” vertente que aproveita o absurdo da exploração, a oposição ao individualismo triunfante é o coletivismo de classe. Mesmo Marx foi criado na doutrina liberal e a dada altura deve ter perdido a pachorra!

Do início da I Guerra ao fim da II Guerra Mundial as reformulações burguesas do Liberalismo numa vertente democrática e cooperante não-beligerante apresentavam-se como uma nova cisão liberal, tentando fazer o compromisso entre os direitos do operariado e os interesses do Capital. Também neste período o Comunismo que começou a todo o gás foi perdendo fulgor com a repressão sistemática, à medida que avançava dos Urais para o Atlântico e que mostrava que o “salto” demasiado rápido de países com fraca industrialização e vocação agrária (Leste europeu), degeneraram em novas tiranias de status quo diferente).
Nesta altura, como se percebe, O Liberalismo era já uma pálida referencia ao seu modelo inicial, ficando colado ao capitalismo conservador e individualista, que desprezava os interesses coletivos (nação, classe, povo, etc.) e que dava para juntar alguns aristocratas em clubes privados na Inglaterra.


Nos tempos que correm, a visão forjada na primeira metade do Séc. XX mantém-se mais ou menos na mesma, embora com a introdução de uma visão ideológica mais próxima do fascismo, no que diz respeito ao termo “neoliberal”.
Como se vê, a história encarregou-se de lixar Locke e entregou o Liberalismo ao Capitalismo que o reformatou numa espécie de “economia para totós”.
Acrescentaram o culto mariano da “mão invisível” de Adam Smith e desqualificaram a humanidade para a condição de cobais de modelos economico-teóricos experimentais.

São gente que não interessa.

Há quem defenda que existem liberais ligados à raiz do tempo de Locke, mas não encontrei nenhum teórico, apenas posições individuais de alguns sociais-democratas e Ron Paul. Desconheço o seu papel e acho sinceramente que são recensões avulsas sem nenhuma vinculação teórica ou ethos político.
Penso que serão vestígios da urticária liberal ao envolvimento político, preferindo dar uns palpites por fora do que assumir o confronto político.

Resumindo, se o Liberalismo tivesse ficado pela luta pelos Direitos, Liberdades e Garantias das pessoas individuais, na defesa do primado da Lei igual para todo e qualquer cidadão, no combate aos abusos de poder do Estado (sobretudo nesta visão anti constitucional da fiscalidade abusiva!), não estaria muito longe dos anseios de toda a classe média que se quer livrar desta selva de gente que povoa o Estado e os aparelhos de condicionamento europeus.

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