Pular para o conteúdo principal

Domingo, 27 de Setembro de 2009 – 23h00

Sócrates assoma a varanda do Hotel Altis para agradecer os inúmeros militantes que agitam as bandeiras da praxe.
Um pouco antes na sua declaração ainda em “Humble Mode”, agradecerá ao povo português a confiança depositada e a compreensão de que a crise mundial perturbou aquilo que estava a ser a melhor governação desde o 25 de Abril. E que compreende a mensagem da urgência da solidariedade emanada da votação.
Do seu discurso surge uma velada intenção de governar sozinho em minoria, não descartando porém o apoio de “todos aqueles que queiram colocar Portugal à frente das suas convicções” (citação prévia que será gizada de maneira provavelmente distinta).
O resto será aquele discurso da vitória de Portugal, da Democracia e do povo.


A soturna noite eleitoral do PSD será passada em sossego.
Desdobrar-se-ão as declarações. Primeiro, Aguiar Branco virá falar da asfixia democrática como razão principal da derrota e do desvio da campanha para outros factos políticos (presume-se menor a possibilidade do Presidente mentir ou ser escutado!).
Esquecerá que o PSD teve o primeiro programa de omissão da história portuguesa e que confiança politica é coisa que o português médio já não tem.
Ferreira Leite fará o discurso de circunstância, felicitando Sócrates, o povo, etc.… e porá imediatamente à disposição o seu cargo no que acho que faz muito bem
Como habitualmente será noite de contar armas.
O PSD é uma pequena Libéria onde, a cada líder, sucede a sua deposição e instalação doutro ainda menos convincente.
Nessa altura 300 comentadores políticos da SIC que tentaram tudo para esconder a fraqueza de MFL, adiantar-se-ão na arte magica da leitura das entranhas para saber o que será o amanhã do partido.
E Marcelo Rebelo de Sousa dirá que o PSD, agora, “poderá trilhar dois caminhos: um o …”.

O Bloco regozija com o dobro dos deputados e a minoria ao PS.
Surpresa será ver Louçã de gravata e num discurso que, passo a citar nas mesmas condições anteriores, que “o BE esteve, está e estará sempre pronto a assumir as responsabilidades que o povo lhe confiou e que tudo fará para que Portugal progrida e se torne mais solidário, etc, etc.
O povo português falou e falou à esquerda e será a esquerda democrática que terá de assumir o compromisso”.
Tocante.
As belíssimas deputadas do BE estarão na primeira fila, esfusiantes e serão capa da Caras na edição pós-eleições.
A ala extrema do BE agitar-se-á, congeminando já nos meios militares a forma de armar o partido.

Paulo Portas – ele próprio é o partido – também exultará com a subida ao nível do PCP.
Fará um discurso de Estado numa primeira fase (e se as contas não me falham, será o primeiro líder a interromper os Especial eleições das TV’s), saudando o PS, mostrando ao PS as vantagens de se coligar com gente séria, experiente e fiel, seguindo uma tradição natural entre os dois partidos.
Dirá também que o PS só tem uma parceria viável, visto que os andrajosos da esquerda não ligam nenhuma a autoridade, não se importam que o país esteja cheio de imigrantes perigosos. “É preciso respeito pelos interesses de Portugal e uma ponte para assegurar aquilo de que o país precisa”.
Mais para o fim da noite virão os sound bites em entrevistas localizadas após cada réplica dos outros líderes e citando nas mesmas condições anteriores:
“ Sócrates mostrou uma grande liderança e sentido político. O PP (Paulo Portas) estará disponível para, de uma forma responsável, assegurar a estabilidade política”.
“O PSD pagou o preço de não querer desenvolver uma mensagem liberal para os portugueses. Procurou sempre os terrenos do PS, não os quais não tem nem vocação, nem experiencia, nem base de apoio”.
“ Existe o real perigo da extrema-esquerda ter uma perigosa influência no poder. Portugal já viveu um passado terrível com esta experiencia. Espero que o sentido de Estado e responsabilidade do PS venham ao de cima nesta hora grave e preocupante em que o PP (Paulo Portas) é a única força a remar contra este mar vermelho”.

Jerónimo reconhece a vitória da CDU em toda a linha, aumentando o número de votantes, sobretudo no Norte oprimido.
Reconhece que a perda de um mandato desvia a atenção da excelente votação da coligação.
Do CC alguém virá dizer que “ocuparão responsavelmente o seu lugar na oposição e que não haverá qualquer possibilidade de entendimento com o PS enquanto continuar a sua política de terra queimada sobre os direitos dos trabalhadores “ (leia-se Função Pública).
Mas o pragmático Jerónimo, o homem mais respeitável da política portuguesa apesar dos dislates ideológicos do PCP, saberá reverter um pouco da situação para si. Referirá a dada altura da noite “ O PS não poderá governar sozinho mas o povo claramente indicou ao PS o caminho, um caminho de esquerda que esperemos Sócrates não o destrua em coligações desastrosas ou acordos com fenómenos da moda”.

O MMS ficará a 3000 votos de eleger um deputado e ninguém o ouvirá porque mais importante do que a vitória de Sócrates, já toda a gente quer saber dos últimos desenvolvimentos na guerra do PSD.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Alguém nos explica isto?

Os registos de voo obtidos por Ana Gomes em 2006 revelam que, entre 2002-2006, em pelo menos 94 ocasiões, aviões cruzaram o espaço aéreo português a caminho de ou provenientes da Baía Guantanamo . Em pelo menos 6 ocasiões aviões voaram directamente das Lajes nos Açores para Guantanamo. Ver o relatório da ONG britânica. Não creio que isto nos deixe mais seguros e tenho a certeza de que me deixa a consciência pesada, foi o estado em que me integro que permitiu isto. PS (por sugestão do Vinhas). As notícias sobre um dos aviões que transportaram presos para Guantánamo e que agora se despenhou no México carregado de cocaína podem ser vistas aqui e aqui ou ainda aqui.

Porque não te calas?!

Com esta frase inaugura-se mais um capítulo das relações entre a Europa e América Latina. A Democracia, este capricho ocidental que, qual religião a expandir-se para além das terras dos Mouros, revela-se na sua melhor versão. Cinco séculos de colonização cruel, imposição religiosa, imperialismo grotesco e “relações de amizade entre os povos” criaram um tiranete de bolso como um produto que, pelos vistos, ninguém quer aturar! “Porque não te calas” (bem podia ser o nome de um bolero) é, no fim de contas, tudo o que representa o diálogo Norte-Sul. É o sentimento do sul-americano pobre que olha para a Europa e América como uma imensa despensa guardada por muros e arame farpado. O esforço de Zapatero (o único a ficar bem na fotografia) em responder a Hugo Chavez numa correcta polidez e consciência de onde estava, ficará na história como um testemunho a paciência. Quanto aos outros dois passaram a imagem tonta do que representam: um, o representante simbólico de uma forma secular de poder qu...