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Não precisamos que ninguém nos afunde, somos perfeitamente capazes de tratar do assunto!

Ultimamente tenho-me sentido como a bordo do barco dos piratas do Asterix, a sensação é a de pertencer a um colectivo nacional que insiste em discutir fait divers, tarefa a que se dedica com tal entusiasmo que, o barco bem pode ir ao fundo....

Vejamos o caso BCP.
Em artigo para o Público Luís Cunha escreve sobre o caso BCP: "Primeiro, a responsabilidade pelos actos praticados, sejam eles quais forem, é dos membros da Administração do BCP, com especial responsabilidade de alguns em termos a apurar. (...) Segundo, como em qualquer empresa desta dimensão, existe uma auditoria interna que vela pelas boas contas, em nome do accionista. Não actuou, porquê? Como foi possível não saber dos perdões de dívidas? São montantes muito grandes, mesmo para um grande banco como o BCP, para que quem tem acesso directo à informação não saiba. Porque não protegeu os interesses dos accionistas pelos quais foi eleita? (...) Terceiro, as contas são certificadas pela KPMG. Tem certamente muita gente em permanência a trabalhar a contabilidade do banco. Não viu nada? Como é possível não cuidar da verdade das contas, estando em causa, mais uma vez, montantes muito grandes, mesmo para um grande banco como o BCP? Mas ninguém fala dela. Quando o caso Enron aconteceu, foi a Arthur Andersen, a maior empresa de auditoria do mundo, que foi chamada à responsabilidade e fechou as portas em consequência. (...)."
Parece-me elementar, e se é certo que a CMVM e o BdP foram enganados e importa saber como, isso não implica que se esqueça, como os nossos liberais esquisitos parecem pretender, apurar quem praticou os factos e daí retirar as devidas consequências. Depois há o triste espectáculo dos privados que de candeias às avessas recorreram à salvação exógena, gestores públicos e ligações à política - e animaram-se as acções; logo de seguida vieram mais ligações políticas, desta vez ligadas à oposição, gritar que o partido do poder quer tomar conta do bastião privado - e as acções caíram; vimos os dois partidos de poder negociar equilíbrios para as suas clientelas e insistir no espectáculo de política rasteira. Como brinde ainda observamos que os administradores da banca podem saltitar de banco em banco sem haver sequer um período de "nojo" que mitigue o conhecimento interno da, agora concorrência mas mais, é possível manter o vínculo ao antigo banco... Deprimente.

Agora o caso do Novo Aeroporto de Lisboa.
Também aqui ninguém fica bem na fotografia, afinal a localização Ota não era assim tão disparatada, de forma que se o período de consulta pública que a avaliação ambiental estratégica exigida pela UE correr mal pode haver problemas. É sintomático deste síndroma dos piratas de Asterix que, a deputada dos Partido Ecologista Os Verdes tenha pegado no célebre "jamais", quando realmente, as imagens mostram que o Ministro citava o que os ambientalistas respondiam perante a hipótese de margem sul do Tejo, o que acaba por ser confirmado pelas declarações de Francisco Ferreira da Quercus quando vem emendar a mão e dizer que os ambientalistas se referiam a Rio Frio e a outra zona do CTA (ver aqui). Depois os autarcas e os mais variados discursos, desde "o que está dito, está dito" à teoria dos interesses, ora abóbora, pois claro que há interesses, o que é preciso é de entre eles privilegiar os nacionais sobre os regionais e sectoriais. Como se isto não bastasse, ainda há a politiquice do quem disse o quê e do desculpe mas isso é uma inverdade. E ainda não passamos à parte de que aeroporto vai ser esse...

No meio de tudo isto vem a UE avisar o governo português da urgência de uma decisão definitiva. Não se preocupem caros parceiros europeus, têm fortes probabilidades de poupar os euros, Portugal é bem capaz de afundar o financiamento do seu aeroporto sem precisar da ajuda de ninguém. Veja-se, já agora, há quanto tempo se discute o traçado do TGV... e vejam em quanto tempo e com que diligência os croatas reconstruíram Dubrovnic.

Comentários

vinhas disse…
A propósito dos piratas do Asterix, é ver a inversão da ordem lógica das coisas: um banco privado desperta tanto interesse ao Estado que o próprio fornece gestores ao serviço de um banco ainda público para compor a lista. Temos então um negócio privado com intervenção directa (acho que nem no PREC aconteceu). Temos uma obra pública, estruturante, de dimensão e relevância, nacional que compete ao Estado definir politicamente e o que vemos é a implicação dos privados na escolha, elaborando estudos que o Estado já deveria ter feito há muito e um debate público, por vezes a rondar a mesquinhez e o bairrismo, com uma proliferação de “engenheiros” e “experts” (leia-se expertos) a opinar, de tal forma que eu, neste momento já concordo que o aeroporto vá para qualquer lado, sei lá Berlengas, Freixo de Espada à Cinta ou Canal Caveira.
Esta interactividade de papéis é obra!
Helena Henriques disse…
No PREC aconteceram coisas mais divertidas, tipo nacionalizações, leis medida essas coisas de direcção central da economia. Agora, qualquer estado, por liberal que seja, se preocupa com problemas na maior instituição financeira privada que opera na sua economia, a questão aqui passa mais pela inexistência de soluções para apaziguar a guerra interna, tinham de procurar fora, não quiseram a mão do BPI, tentaram segurar-se com uma solução que implica certamente aval governamental. Esperemos que fique por aqui, e com capacidade de ultrapassar previsíveis punições.
Quanto ao aeroporto, o problema dos estudos privados é que agem sempre de acordo com os seus interesses e estes nem sempre são os mais adequados a longo prazo ou mesmo em termos de interesse público ou nacional. O problema é que os governos como representantes desse interesse estão descredibilizados quer por permeabilidade a lobbies, quer por prossecução de interesses das clientelas partidárias. Quanto à opção Canal Caveira, acho má opção, vocês sabem do que estou a falar.

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